2010 foi sem dúvida alguma o ano dos abalos sísmicos. Só para que se tenha dimensão da gravidade, até o início de maio do ano passado os terremotos resultaram em mais de 200 mil mortes pelo mundo, a exemplo do Haiti, China e Sumatra. Não muito depois, em julho, o terremoto tornou-se outro: o anteriormente inofensivo site WikiLeaks ganhou notoriedade ao expor para toda a internet dados sigilosos da diplomacia americana.
Fundado em dezembro de 2006 pelo jornalista e ciberativista Julian Assange, o WikiLeaks tem se encarregado da publicação de qualquer tipo de mídia e informação sobre assuntos delicados. Em seis meses de existência já era possível encontrar mais de um milhão de documentos que revelavam desde "como se tratar com crueldade" os prisioneiros de Guantánamo (campo de concentração norte-americano em Cuba) até a lista de integrantes da extrema-esquerda da Inglaterra. Entretanto, nada causou tanta repercussão quanto o vazamento (daí o nome Leaks) de dados sobre o exército dos Estados Unidos e sua atividade irresponsável e desumana nas guerras do Iraque e do Afeganistão. São vídeos e páginas e relatórios secretos descrevendo torturas de prisioneiros, ataques a civis por pura "diversão" e tantos outros crimes de guerra.
Conseqüência disso, WikiLeaks e seu fundador foram considerados pelo governo estadunidense e seus aliados como ameaças à segurança nacional e sofreram pesadas represálias políticas. Simultaneamente à imagem de "terrorista high-tech" - como definiu o vice-presidente da maior potência econômica - há quem diga que Assange é o herói libertário que as democracias atuais estavam precisando. Mas será mesmo tão fácil e eficiente enquadrá-lo em algum desses opostos tão simplistas?
Ora, todos nós sabíamos o que se passava no Oriente, entretanto preferíamos ignorar, até que Assange surge como aquele que grita boas verdades na cara de todos. O objetivo era nobre: alertar a população mundial acerca dos atos imperialistas que uma América, que se julga tão defensora dos Direitos Humanos, está cometendo em pleno século XXI. Por outro lado, faltou por parte do jornalista o bom-senso ao divulgar dados puramente com o intuito de chocar.
Em contrapartida, os Estados Unidos. Tão metido em corrupções e fraudes, mas ainda admirado por muitos. A respeito de toda essa confusão o governo declarou que a divulgação de tais dados é uma afronta à diplomacia e chega a "representar risco para os soldados e afegãos". O que eles se esquecem ironicamente é de que sua própria presença no Oriente é que resulta na morte de tantos afegãos, não a liberação de informações secretas sobre o terrorismo que os Estados Unidos tem implantado naquele povo em busca de petróleo.
Por fim, uma questão que cabe nesse contexto é a dos limites para a divulgação de informações na era da digitalização. A liberdade de expressão foi conquistada após tanta luta que limitá-la seria um desrespeito àqueles que a desejaram no passado. O que deve ser feito, portanto, não é nada mais que a simples aplicação do bom-senso e da ética por ambas as partes; aquela que prejudica e a que divulga. Apenas dessa forma a política externa se torna exatamente como deve ser: transparente, popular e, sobretudo, democrática.

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