quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sol de outubro

Trecho do meu segundo livro que justifica o título do mesmo. Espero que gostem.

       "Era o último sol de outubro. O último, mas ainda pertencente àquele mês. E eu me senti como ele. Apesar de tudo o que havia acontecido nos últimos meses, apesar de todos os erros, dos piores momentos e transformações pelas quais havia passado, chegando ao ponto de não me reconhecer às vezes; eu sabia que por dentro ainda existia em mim um pequeno pedaço daquele que eu fora um dia. E isso me deixava feliz. Mais importante: fazia Fernanda, deitada ao meu lado e iluminada pelo sol nascente, feliz."


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Beleza enlatada

       A valorização da imagem sempre foi um tema recorrente nas sociedades de todas as épocas. Na Bíblia, Salomão declarou: "Vaidade, tudo é vaidade". Narciso, da mitologia grega, tão apaixonado pela própria beleza afogou-se num lago enquanto admirava seu reflexo. Oscar Wilde seguiu o mesmo rumo ao criar seu personagem Dorian Gray, que faz um pacto para ser eternamente jovem e belo, mas acaba caindo na desgraça da infelicidade em plenos anos dourados da Inglaterra.
       De fato, uma boa aparência é desejada pela maioria das pessoas, uma vez que ajuda não só no bem-estar íntimo, mas também na vida profissional e nas relações interpessoais de todos os dias. Os inúmeros avanços das tecnologias e da medicina tornaram-se aliados daqueles que buscam melhorar a saúde e a aparência. Entretanto, é perceptível que cada vez mais pessoas têm confundido a linha que separa uma condição saudável da obsessão pelos estereótipos impostos pelas mídias.
       Na televisão, nas revistas e em outros meios que utilizam-se da visão para cativar o público-alvo o que mais se encontra é a assimilação de beleza com felicidade. Bom seria se fosse a beleza comum, daquela que cada pessoa tem um pouco e é facilmente vista. Mas não. A beleza pregada é a da forma escultural, da pele perfeita, dos cabelos ao vento e da simetria absoluta. Essa perfeição estética inalcançável à maioria da população é o que a torna frustrada em graus cada vez maiores e a leva a cometer loucuras em nome da síndrome da Barbie.
       No Brasil de 2004 mais de 600 mil pessoas se submeteram à cirurgias em busca de melhor aparência e, segundo a London School of Economics em parceria com Harvard, apenas 7% das mulheres brasileiras se consideravam bonitas. Muitas vezes a obsessão em atingir o “padrão” é tanta que extrapola os limites da saúde e resulta em casos conhecidos de perda de cabelo, queimaduras em bronzeamentos artificiais, lipoaspirações mal sucedidas e problemas na coluna e nas articulações devido ao excesso de musculação. Até mesmo aquilo que começa como uma preocupação saudável acerca da dieta pode chegar a níveis doentios como bulimia e anorexia, que estão tornando-se comuns também entre os homens, o que induz à conclusão de que eles agora estão encarando a vaidade com naturalidade em relação às gerações passadas. É preciso, contudo, saber diferenciar vaidade de loucura.
       Felizmente há uma parcela da população que não se submete a esta ditadura dos corpos, que como qualquer outra gera apenas infelicidade. David Weeks, psicólogo da Universidade de Edinburgh, conduziu uma pesquisa de dez anos com 969 pessoas pelo mundo que não se encaixavam nos padrões estéticos impostos. O resultado do estudo confirmou que esse grupo era mais seguro de si mesmo, menos estressado, mais feliz e, por conseqüência, tendia a viver mais.
       É necessário desvincular imediatamente a idéia de felicidade e bem-estar de estereótipos imperfeitos e não-saudáveis. Uma vez que a beleza é padronizada se torna comum e sem graça, além de não ser garantia daquilo que há de melhor para oferecer: inteligência, bondade, amor, respeito e cultura.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um conflito para o bem

       Ninguém escapa do envelhecimento. Cedo ou tarde, de acordo com o que cada um julgar, o tempo inevitalmente chega e consolida uma geração marcada por gostos, expressões e modismos típicos. Mas o tempo continua correndo e, consequência disso, fazendo surgir outra geração, desta vez com seus próprios ícones característicos. E é aí onde reside o problema na maioria das vezes.
       A convivência entre os vários tipos de diferenças quase sempre acarreta em conflitos e isso pode ser claramento observado quando o assunto são gerações. Antigamente entendia-se pelo termo um período de 25 a 30 anos. Entretando, nas últimas cinco décadas notou-se a aceleração das tecnologias e mesmo do próprio tempo, tornando em poucos anos aquilo que era considerado moderno em obsoleto. Hoje, dez anos já faz uma geração.
       Esse intervalo mais curto entre épocas analisado pelo educador Mário Sérgio Cortella é fator ainda mais agravante das disparidades entre as gerações. Não só no Brasil, mas em todo o globo os mais velhos querem privar a juventude de certas experiências por terem eles próprios as vivenciado e considerado ruins. Por outro lado, os mais novos tendem a ignorar seus antecessores justamente pelo fato de serem "passado". E ambos estão errados.
       As gerações anteriores devem selembrar que, para o bem ou para o mal, só se aprende a viver vivendo e se desejam ajudar a nova parcela da sociedade em desenvolvimento devem fazê-lo por meio de conselhos, nunca por imposições ou restrições. Simultaneamente, é papel dos mais novos, por sua vez, não condenarem aqueles que vieram antes deles e sim tentar extrair da geração passada alguma forma de aprendizagem e reflexão. Mas nem sempre isso é suficiente.
       Algumas vezes o conflito é inevitável e pode-se dizer que é inclusive natural, pois cada geração tem suas idéias, pensamentos, valores e comportamentos que julgam corretos e desejam defender. No entanto, é necessária a percepção de que esses atritos não são ao todo ruins; pelo contrário: se bem trabalhados - na base do diálogo, da compreensão e da cessão mútua - eles se tornam oportunidades excelentes para o crescimento de ambas as partes nos aspectos da vida familiar, amorosa, profissional e em tantos outros.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Através do espelho

       Ele adorava aquele cheiro. E o barulho característico. De olhos fechados, Daniel deixava todas as suas preocupações e desgostos serem lavados pelo mar abaixo dele. Ao menos uma vez por semana agradava-lhe subir até o ponto mais alta da escarpa e observar a ressaca do mar por incontáveis horas. Aquele dia, porém, o irmão Thomas estava ali, e ele não era muito interessado no marulho ou na salinidade.
       Também, porque haveria de ser? A que ele possivelmente poderia dar evasão? Fora o preferido dos pais, cursou a melhor universidade, fundou uma empresa de sucesso e, mesmo gêmeo, parecia mais bonito que o irmão. Daniel, embora idêntico, era exatamente o oposto. Era o responsável por cuidar da mãe com Alzheimer depois que o irmão se mudou, por lidar com a recente morte da namorada, por não ter tido um único bom emprego, por querer tanto e poder tão pouco. Todavia, não culpava o irmão, àquela hora de pé com a mão em seu ombro esquerdo, chamando-o a se levantar e irem para casa.
       Apenas os dois na sala da mãe doente, sentaram-se nas poltronas de veludo de frente à lareira. Thomas regava suas palavras com vinho, Daniel com vodca. Até a madrugada conseguiram evitar falar sobre como o destino havia transformado suas vidas tão drasticamente. Uma vez tocada a ferida, Thomas percebeu um irmão triste e talvez até invejoso. Mandou-o esperar. Tinha um presente para ele. A verdade.
       Depois de subir, desceu a escada com uma caixa retangular muito fina e de sua altura. Era irreal que estivesse conseguindo carregá-la sozinho, mas Daniel supôs que fosse o efeito do álcool. Thomas parou de pé ao lado da caixa e disse ao univitelino que tudo o que havia conquistado era graças ao que repousava lá dentro. Daniel empolgou-se em ser metade do que o irmão era, mas quando Thomas abriu a caixa e deixou à mostra apenas um enorme espelho numa moldura dourada perdeu as esperanças. O que estava de pé começou a explicar para Daniel que o espelho oferecia um mundo paralelo no qual ele poderia ser e ter tudo o que quisesse e, se fosse forte o bastante, poderia trazer suas conquistas para o mundo real. Entretanto, seu uso deveria ser moderado e responsável, pois muitas pessoas foram levadas à loucura desde que se obteve conhecimento daquele objeto. Para entrar no universo, Thomas pontuou com bastante cautela, Daniel teria que ser capaz de oferecer sua alma. O irmão que ainda estava sentando se levantou, aceitando a condição. De frente ao espelho refletindo as chamas da lareira, selaram o pacto com um beijo. No princípio, seus lábios eram a brisa que anunciava a chegada da primavera. No fim, fogo mais ardente que o que queimava a madeira na sala. E tudo escureceu.
       Do outro lado, Daniel estava deslumbrado. Aquela era a vida que desejava, que merecia. Lá tudo podia, tudo era. Encantou-se com as festas, as mulheres, a fartura e o prazer em toda a extensão de todos os dias. Anos chegaram a se passar e ele não poderia cansar-se nunca de toda aquela vida hedonista. Porém, por motivo incerto, o espelho o vomitou e o jovem estava caído de borco nos pés do irmão sentado à poltrona de veludo. Thomas olhou curioso para seu gêmeo recém-chegado e estava evidente que no mundo real poucos minutos se passaram. Daniel se levantou e desejou retornar, ser absorvido de novo, levado para além do espelho. A superfície reflexiva, insensível, havia tornado-se sólida.
       Semanas se passaram e tudo o que Daniel soube fazer foi falar do espelho e tentar entrar no outro mundo mais uma vez. Thomas, ainda na cidade natal, arrependeu-se de ter revelado o objeto e decidiu livrar-se daquela coisa antes que ela transformasse seu irmão em mais um dos loucos. Colocou a peça na caminhonete. Daniel não aceitava, mas, revoltado, insistiu para ir. Chegaram à conhecida escarpa.
       Os dois viram o objeto pela última vez e Thomas o jogou na ressaca abaixo deles. Num ato impulsivo Daniel, iludido pelo mundo através do espelho, pulou atrás do objeto amaldiçoado desejando fundir-se com ele, provando daquela forma a entrega total de sua alma. Thomas tentou segurá-lo, mas era tarde demais. Enquanto caía, o jovem mirou o topo do monte rochoso e não conseguiu ver o irmão que segundos antes estivera ali na ponta do penhasco. Em queda livre a verdade enfim o atingiu. O jovem encontrou o irmão em si próprio; Daniel e Thomas simultaneamente. Talvez isso pudesse contar como mais uma alma para o espelho, facilitando seu retorno.
       Em breve atingiriam o mar e seriam três em um. Ah, ele adorava aquele cheiro.