Goiânia, 10 de novembro de 2009
Caro reitor Edward Madureira Brasil,
me chamo João da Silva e sou um estudante concluinte do Ensino Médio pelo sistema público de educação e anseio desde muito novo tornar-me um advogado. Entretanto, tendo dificuldades financeiras que me impedem de estudar em bons colégios e preparatórios para o vestibular - em sua maioria particulares -, vejo meu objetivo distante de sua realização, ainda mais com uma política de ação afirmativa recém-adotada pela UFG que prioriza uma parcela de população injustificadamente.
A cota para negros foi um medida há não muito implantada que tem causado certo desconforto na população preterida. Aqueles que a defendem justificam-se dizendo que a política tem como finalidade reparar tantos anos de peleja dos afrodescendentes no início da história de nosso país. Argumentam ainda que a sociedade brasileira é muito racista e que o número de negros nas universidades é desprezível. Entretanto, percebe-se claramente que o sistema de cotas faz na verdade aumentar a segregação e o preconceito dos brasileiros à medida que afirma que certos grupos são melhores ou piores, mais ou menos capacitados que outros. Em alguns casos, essa política afirmativa ultrapassa o ridículo e incentiva cada vez mais a intolerância contra os negros, haja vista o caso do estudante que prestou vestibular na UFRGS para administração e não foi aprovado, perdendo sua vaga para um cotista que havia tirado nota menor que ele.
Mas a grande questão, que merece de fato ser foco da discussão, é esta: até que ponto a cor da pele de uma pessoa interfere em sua capacidade cognitiva? Pois é isso que está em jogo quando se presta um vestibular.
Na última década tem-se notado no "país de todos" uma necessidade quase que patológica de integração na sociedade das várias crenças, costumes e "raças" - quando o certo seria usar "etnias", uma vez que a raça é única: a humana. Já que políticas afirmativas estão tão em alta, porque não utilizar-se delas de forma a favorecer grupos realmente necessitados? Vide os deficientes intelectuais e a população de baixa renda - que não tem condições financeiras para bancar os processos seletivos elitistas. E infelizmente, como o Estado é incapaz de agir em favor da melhoria do ensino público, um terceiro grupo poderia ser admitido para receber cotas: alunos desse vergonhoso sistema. Ressalta-se aqui, porém, que essas últimas cotas não vão tirar o ensino público da precariedade, elas são apenas uma medida paliativa. Após isso, conclui-se que somente esses três grupos poderiam, com dignidade, ingressar no Ensino Superior de maneira facilidada.
Espero que por meio desta tenha feito Vª Magnificência rever os conceitos de uma verdadeira política afirmativa e discutir com a comunidade acadêmica, o corpo docente e administrativo maneiras de torná-la eficiente e não-separatista. De fato, o Brasil tem uma dívida histórica e social para com os negros, mas essa responsabilidade não pode ser jogada em cima da população que vive no século XXI, de outra forma, grupos como louras, homossexuais, judeus, albinos e tantos outros mereceriam receber privilégios devido a seu passado histórico cheio de repressões.
Numa sociedade democrática este é o mínimo que se pode esperar.
Cordialmente,
João da Silva.
► O local, a data, o destinatário e o remetente (incluindo a universidade e o curso por ele pretendidos) são apenas referenciais para o cumprimento da proposta de redação.




