quarta-feira, 27 de julho de 2011

Nacionalismo futebolístico

Contexto: junho/julho de 2010.

       É época de Copa. Pelas ruas é possível encontrar carros com bandeiras, camisetas da Seleção, lojas e pessoas exalando verde e amarelo. É tempo de felicidade, sorrisos, reunião e nacionalismo. Mas passado um ou dois meses, o que aconteceu com tudo isso? Onde estarão as comemorações, a alegria e, acima de tudo, o patriotismo? Certamente que repousando para ressurgirem com força máxima em quatro anos, pois este é o ciclo que o Brasil se acostumou a repetir.
       Durante um mês, não há nada mais importante que nossa Seleção. O jornal perde parcialmente sua função; política, educação e violência deixam de existir e a população brasileira se ilude com isso. As pessoas se tornam mais humanas, o comércio faz a festa e as diferenças sociais tão gritantes de outrora parecem desaparecer. E realmente apenas parecem. Porque enquanto muitos torcem no conforto de seus condomínios fechados e casas com cerca elétrica, milhões ainda vivem em estado decadente, sub-humano. As favelas não desapareceram, tampouco os assassinos, a fome e os desabrigados.
       Essa cegueira coletiva na percepção do brasileiro em época de Copa é compreensível se analisarmos nosso passado. Fomos colonizados, escravizados, submetidos à ditadura e tantos outros itens de um histórico que torna nossa nação sofrida e nos dá o direito de imaginarmos a nós mesmos como perdedores, subjugados. Eis que surge então o futebol, algo para o qual realmente fomos feitos, o esporte que é paixão incontestável. E temos a certeza de que, nesse aspecto, somos campeões. Entretanto, com o fim da Copa voltamos ao estágio inicial: uma nação sem perspectiva e patriotismo.
       O civismo criado pelo futebol é obviamente benéfico para o país. Contudo, melhor seria se pudéssemos ser patriotas os 365 dias do ano. Para isso necessário seria que fôssemos campeões também em outras modalidades como as inúmeras questões socioeconômicas alarmantes. É preciso mais investimento e políticas eficientes para que possamos nos orgulhar de sermos bons na saúde e ensino públicos, na segurança, cultura e economia. Se o futebol é paixão nacional porque somos incomparavelmente melhores que todos os outros países, precisamos desenvolver o mesmo sentimento para essas outras áreas.
       Todavia, nada vai mudar se continuarmos parados. Como no esporte que nos move, é necessária ação, estratégia e iniciativa. Precisamos aprender a votar, discutir política, não sermos manipulados por telejornais ou alienados por novelas. Precisamos pensar, criticar e, por fim, entender que nós - e nosso país - temos potencial para sermos uma nação que pode vencer muito mais que Copas do Mundo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Opinião: A suposta superioridade cultural

       É preocupante que em pleno 2011 algumas pessoas civilizadas e estudadas defendam a idéia de que determinada cultura é superior a outra, seja analisando aspectos como a saúde, tecnologia, economia, política ou religião de suas sociedades.
       Antes de tudo, é necessário entender e o que é sociedade e cultura. Sociedades são grupos de pessoas com vidas semelhantes e semi-abertas a fatores (incluindo indivíduos) externos. Há, de fato, um intercâmbio de produções, técnicas e métodos entre dois ou mais povos, mas eles ficam caracterizados por suas principais peculiaridades, pelas produções e hábitos comuns geralmente aprovados e feitos pela maioria; e a isso se dá o nome de cultura. Essas características que distinguem uma sociedade, por sua vez, compõem um sistema fechado, suficiente e que faz sentido apenas dentro de si. Não é necessário o olhar, a crítica ou o estudo de alguém que não faz parte de uma cultura para julgá-la melhor ou pior.
       Li recentemente uma frase que me motivou a escrever esse artigo: "a cultura indígena é inferior à caucasiana, pois essa última criou a 9mm, arma muito mais potente, tecnológica e que demanda mais inteligência em sua construção que os tacapes ou zarabatanas utilizada pelos gentios.". O comentário absurdo se extendeu ao ponto de "a cultura italiana é superior à brasileira", pois "desenvolveu Ferraris enquanto o Brasil até hoje não tem uma fábrica nacional de automóveis". Os exemplos citados pelo ingênuo que conheci mostram os dois erros que as pessoas que defendem alguma superioridade cultural carregam consigo.
       O primeiro é o da relativização cultural. "Uma é melhor que a outra, pois inventou isso ou aquilo." Ora, sejamos sensatos. Nenhuma sociedade é pioneira ou detentora de todos os melhores hábitos e invenções do mundo. Se uma é boa em "A" com certeza deixa a desejar em "B", e porque não admitir que outra cultura pode muito bem desenvolver "B" com maestria?
       O segundo erro mistura orgulho e hipocrisia. Todas as sociedades tendem a achar que sua cultura é superior a alguma outra porque suas técnicas são "mais desenvolvidas". Pouco importa se são. Quando se trata de culturas, a única coisa a ser analisada é a eficiência de seus métodos. Voltemos à primeira frase do ingênuo. Postos lado a lado, um revólver e uma zarabatana têm o mesmo objetivo: matar outro ser vivo. Se ambos cumprem a finalidade a que se dispõem em seu ambiente de origem, ambos são eficientes e têm, portanto, o mesmo valor. Como dito acima, culturas são sistemas isolados. Bandidos ou PM's da cidade não vão usar zarabatanas uns contra os outros e índios não vão caçar animais com pistolas 9mm.
       Por fim, isso vale para todas as sociedades que divergem tanto quanto aos métodos e criações culturais. Comparar o cinema, a música, a etnia, as festividades e outros fatores para selecionar uma "cultura superior" demonstra apenas ignorância. Se os produtos caracterizadores de um povo forem eficientes em seu sistema fechado, então são tão bons quanto quaisquer outros que também sejam eficientes.


       Fiquemos de olho nessas pessoas que legitimam a superioridade cultural de determinada sociedade. No final das contas os pensamentos dos líderes da Inquisição Medieval, dos genocidas de Ruanda, de Hitler, Bin Laden e Gobineau não eram tão diferentes assim...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os 10 melhores anos da minha vida


       Muitos preferem não exercer suas imaginações de forma alguma. Optam por permanecer confortavelmente dentro dos limites de sua própria experiência, nunca se preocupando em perguntar como seria ter nascido diferente do que são. Eu poderia invejar pessoas que conseguem viver dessa maneira, exceto por achar que eles não têm menos pesadelos que eu. - J.K. Rowling