sexta-feira, 28 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Colapso do século XXI
"A vizinhança é uma arma engatilhada/Motivos banais desencadeiam gritos à todo vapor/A confusão em massa é o ódio que alimenta os que vivem da histeria". Com essa letra, os integrantes da multi-premiada banda de punk-rock Green Day criticam a transformação que acomete as sociedades ditas civilizadas do século XXI. Apesar de feita num contexto estadunidense, a análise pode ser aplicada perfeitamente ao Brasil, onde nunca se viu tanta violência como agora.
Estando presente nos locais de trabalho, no trânsito, no lar e até mesmo contra os animais, essas manifestações negativas têm se destacado por um fator agravante: a parcela jovem da sociedade está contribuindo cada vez mais para o aumento das estatísticas da violência no país. Segundo pesquisa do Ministério da Justiça, 40% dos jovens mortos na última década foram vítimas de homicídios (nos adultos, esse valor não chega a 2%); e a taxa sobe para 62% quando se acrescentam fatalidades no trânsito e suicídio, que também podem ser consideradas formas de violência. Para comparação, na década de 80, 47% dos jovens morriam por doenças infecciosas e epidemias.
Contudo, assassinatos, suicídios e acidentes de trânsito não são as únicas expressões de violência. É preciso entender esse termo muito além da agressão física ou da morte; haja vista os casos de bullying e preconceitos em geral. Muita vezes, esse tormento psicológico é que vai desencadear a manifestação física e a fatalidade, seja do agressor ou do agredido.
Uma outra análise importante a ser feita é a necessidade de se desvincular imediatamente a associação simplista e preconceituosa entre pobreza/etnia/violência. Estudantes brancos de Direito de classe alta que espancaram uma negra recentemente são tão marginais quanto o garoto mulato e pobre de Realengo que abriu fogo contra os alunos de sua antiga escola onde sofria bullying. Os "machinhos" da elite que apostam rachas e matam pedestres "sem querer" são tão covardes quanto um jovem traficante do morro que mata alguém que lhe deve dinheiro. Esses, e tantos outros exemplos, estão aí para provar que a linha que gostavam de imaginar, responsável por separar o pobre do rico - a civilidade decorrente do dinheiro -, era simplesmente uma mentira. E a verdade é que estamos todos entrando em colapso. E motivos não faltam.
Segundo geógrafos, o processo de urbanização no Brasil começou na década de 1970 e no final dos anos 80 as grandes cidades já experimentavam um inchaço demográfico. Além de forçar a convivência entre pessoas de diferentes pensamentos, criações e hábitos, esse processo levou ao desemprego, às precárias habitações e ao estresse; fatores esses sentidos principalmente por adultos, mas vivenciados em toda a sua dor por seus jovens filhos. Já a mídia, em todas as suas formas, parece estetizar a violência e usá-la como fonte para atrair audiência, ao mesmo tempo em que vende sonhos alienantes e consumistas, como se isso pudesse dar ao jovem a liberdade e a felicidade tão desejadas dessa época. Por fim, o laço que unifica isso tudo: a falta de consciência ética e coletividade que ocorrem quando a família ou está desestruturada ou ignora sua função educacional, entregando esses papéis à escola, aos computadores e demais tecnologias. A interação entre dois ou três desses fatores acaba, com certeza, levando à explosão de violência que os jovens têm praticado hoje.
Como resgatar nesse grupo, então, o "querer-viver" de Schopenhauer e o "instinto de auto-preservação" de Freud? Não é um trabalho fácil, por isso é necessária uma ação conjunta entre Estado, mídia e família. Esse primeiro tem de urgentemente fornercer condições saudáveis para o desenvolvimento dos jovens; promover melhorias nas escolas públicas, incentivar as artes e esportes e dar a eles condições reais de inserção no mercado de trabalho. A mídia poderia mudar o seu projeto de formar um "jovem alucinado" e conscientizá-lo de seu papel como mantenedor da paz na sociedade do futuro. Mas o mais importante continua sendo aquilo que se aprende em casa. Os pais de hoje precisam ser mais rígidos (não autoritários ou agressivos, contudo) na educação dos filhos. Implantar neles desde cedo a valorização e o respeito ao outro, a prática da benevolência, da ética e, quando possível, das ações comunitárias são medidas fundamentais para a formação de um jovem-adulto de bem.
Dessa forma, a juventude, fase tão bonita, mas infelizmente caracterizada pela opressão e terror atuais, poderá voltar a ser vista como elemento de esperança, bondade e harmonia. Até lá, entretanto, teremos uma longa caminhada, mas podemos dar os primeiros passos hoje. Agora.
Anexo (citação do início do texto): Green Day - American Eulogy (a)Mass Hysteria (b)Modern World.mp3
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