segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Opinião: Sobre o voto branco ou nulo

       A ignorância e a indiferença do eleitorado são as principais causas da corrupção e da pobreza de espírito que assola a política no Brasil; e para mudá-la a sociedade deve mudar a si mesma anteriormente.
       O Brasil não está num alto nível democrático que permite que seus eleitores abdiquem o voto - para quem não se lembra, saímos de uma ditadura há apenas 25 anos -, portanto, alternativas como o voto nulo ou branco são impensáveis. Talvez um dia o voto no Brasil venha a ser facultativo, e se o for, saberemos que foi pela conquista do povo, que, interessado, utilizou o poder de escolha como uma ferramenta de "seleção natural" de alta eficácia, deixando no poder apenas os políticos comprometidos com o melhor para a Nação.
       Até que esse dia chegue, porém, o voto compulsório - e consciente, claro - continua sendo a melhor maneira para expurgar da política aqueles que não merecem estar nela e, acima de tudo, demonstrar comprometimento com o tipo e a qualidade de vida que se quer para o futuro não só individual, mas coletivo e também das gerações por vir.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A ética do lado de cá do espelho

       Viver em sociedade não é uma tarefa fácil. Para que essa missão fosse bem-sucedida, o filósofo John Locke teorizou um contratualismo político, no qual os homens - percebendo a necessidade de um órgão para regulamentar as relações - submetiam-se voluntariamente a um governo. Já para Rousseau, o contrato deveria ter cunho social, com os indivíduos organizando a sociedade por si mesmos de acordo com a vontade geral. Ao passo em que os dois pensamentos podem ser vistos como complementares, fica claro que em ambos os contratos há um papel indispensável ao cidadão para que a coletividade seja mantida: a consciência ética.
       Atualmente tão esquecida, ela é o conjunto de valores que norteiam a boa conduta do ser humano nos mais diferentes aspectos. No governo brasileiro já se tornou chavão dizer que "todos os políticos são corruptos". Entretanto, esquece-se com isso de que nossa democracia é representativa; os políticos que estão no poder nada mais são do que reflexo de nossa sociedade. Outro ponto negativo nessa condenação generalizada é o perigo de vermos a falta de integridade sempre nos outros, nunca em nós mesmos.
       Contudo, jogar lixo na rua quando se tem uma lixeira logo à frente, ou aceitar dez centavos a mais no troco da padaria é tão desonesto quanto colocar milhares de dólares na cueca. E o indivíduo que não percebe essa relação e se sente alheio diante o cenário vergonhoso no qual o Brasil se encontra, apenas contribui para legitimar a corrupção na sociedade e, consequentemente, na política.
       Para que essa mentalidade conformista com as injustiças e a falta de caráter seja extinta de nossa nação é necessário antes de tudo experimentar a ética no dia-a-dia. Ser honesto, pensar no e respeitar o próximo, e ter a dignidade de reconhecer que o mundo não se baseia no egocentrismo são os principais passos para que uma verdadeira transformação tome conta do nosso país. Outra medida de fundamental valor seria o urgente investimento em educação de que todos falam. Mas não apenas na propagação de fórmulas matemáticas ou regras gramaticais; educação aqui no sentido de formar crianças e jovens - que serão nosso futuro - com senso crítico e consciência moral, cidadão e ética.
       Apenas dessa forma a solidariedade e o respeito ao diferente irão se fazer realidades no Brasil, permitindo o nascimento de uma democracia mais limpa, justa e acolhedora que qualquer filósofo poderia teorizar.

       Imagens da Marcha Contra a Corrupção realizada em Brasília no dia 7 de setembro de 2011. Reuniu cerca de 20 mil pessoas que pediam o fim do voto secreto no Senado e na Câmara, além de maior transparência no gasto do dinheiro público e a validação da Ficha Limpa para as próximas eleições. Movimentos semelhantes aconteceram em São Paulo e no Rio, juntando mais de 50 mil pessoas.Tudo combinado pelas redes sociais. Novas marchas já estão sendo agendadas em várias cidades pelo país.

domingo, 11 de setembro de 2011

V de "Justiça"

      Onze de setembro de 2001. O ataque terrorista ao World Trade Center deixa mais de três mil mortos e outra série de atentados é praticada em Washington e na Pensilvânia. Uma tragédia que imprimiu suas imagens assombrosas na memória coletiva do planeta.
       Hoje, dez anos depois dos ataques liderados por Osama bin Laden, ícone máximo do grupo terrorista Al Qaeda, "justiça foi feita". Ao menos foram essas as palavras retumbadas com satisfação pelo presidente estadunidense Barack Obama. Nas ruas de Nova Iorque e outras grandes cidades da maior potência econômica mundial - em crise - houve festa. Os civis saíram às ruas aplaudindo, gritando e ridicularizando a morte do homem responsável pelas milhares de fatalidades dez anos antes. A Agência Central de Inteligência Americana (CIA) declarou sem pudor que o objetivo de sua missão era de fato matar bin Laden. Justiça?
       Não, senhores. O nome disso é vingança. Punir morte com morte é uma animalização, faz-nos regredir aos tempos da Lei de Talião no início da história da humanidade. Osama estava errado? Claro. Mas essa última demonstração imperialista dos EUA faz com que eles percam a razão e se tornem tão terroristas quanto o mentor da Al Qaeda: o governo americano se consolida como terrorista da democracia e dos Direitos Humanos.
       A Al Qaeda, por sinal, havia muito já não era liderada por bin Laden. Como todo grupo organizado, há uma hierarquia e o médico Al Zawahiri é o atual mentor da rede de fundamentalistas. Osama nos últimos anos era nada mais que um ícone de fácil identificação, um representante demonizado do terror pelo governo estadunidense a fim de fazer o mundo compactuar com suas ações imperialistas. O assassinato desse representante não significa justiça ou o fim da era do terror, tampouco da guerra contra ele. Pelo contrário, bin Laden se tornou um mártir para seus seguidores, que já declararam que a morte de seu líder será uma "maldição que irá perseguir os americanos e seus aliados".
       Diante essa ameaça, o mundo se posiciona. O Conselho de Segurança da ONU ordenou que todos os países permaneçam atentos e intensifiquem os esforços na luta contra o terrorismo. Por inconsequência e imaturidade do prepotente governo americano, todos foram convocados a escolher um lado em uma guerra que nem teria começado se os presidentes dos EUA não tivessem um histórico em querer controlar todas as nações do globo. O principal terrorismo a ser combatido, senhores, deveria ser o imperialismo.

Justiça?

  
UM CONTO SOBRE UM IMPÉRIO: 
       • 1945: EUA bombardeiam Hiroshima e Nagasaki. Resultado: 300 mil mortes.
       • 1953: EUA derrubam Mossadeq, primeiro-ministro do Irã. Colocam Shah como ditador.
       • 1954: EUA derrubam Arbenz, presidente da Guatemala eleito democraticamente. 200 mil civis são mortos no processo. 
       • 1963: EUA apóiam o assassinato do presidente sul-vietnamita, Diem.
       • 1963-75: Exército americano mata 4 milhões na Ásia.
       • 1973: EUA armam um golpe de Estado no Chile. O presidente Salvador Allende, eleito democraticamente, é assassinado. O ditador Augusto Pinochet assume. 5 mil chilenos são assassinados.
       • 1977: EUA apóiam o governo militar de El Salvador. 4 freiras e 70 mil salvadorenhos são mortos.
       • 1980: EUA treinam bin Laden e terroristas para matarem soviéticos. A CIA banca a operação de U$ 3 bilhões.
       • 1981: O presidente estadunidense Reagan treina e financia revoltosos contra o governo da Nicarágua. 3 mil civis morrem.
       • 1982: EUA dão bilhões de dólares a Saddam Hussein para que ele compre armas para matar iranianos. 
       • 1983: Casa Branca é descoberta fornecendo secretamente armas ao Irã para matar iraquianos.
       • 1989: O agente da CIA e também presidente do Panamá, Manuel Noriega, desobedece comandos de Washington. Os EUA invadem o Panamá e desapossam Noriega. Saldo de 3 mil panamenhos mortos.
       • 1990: Iraque invade Kuwait com armas fornecidas pelos americanos.
       • 1991: EUA invadem o Iraque. Bush-pai reempossa o ditador do Kuwait.
       • 1998: Bill Clinton bombardeia com mísseis "fábrica de armamentos e antraz" no Sudão. Descobre-se, contudo, que era uma fábrica de aspirinas.
       • 1991-2010: Aviões americanos bombardeiam o Iraque semanalmente para "estabelecer um governo democrático" e acabar com o programa de "armas de destruição em massa". Segundo a ONU, pelo menos 500 mil crianças morreram devido às bombas e suas consequências.
       • 2000-01: EUA dão aos talibãs que controlam o Afeganistão U$ 245 milhões para "ajuda".
       • 11 de setembro de 2001: Osama bin Laden mata 3 mil pessoas no ataque às Torres Gêmeas com técnicas que aprendeu com a CIA.


domingo, 4 de setembro de 2011

Metáforas

        Continuou girando os pedais com toda força que tinha. Sabia que ia cair. E todos iam ver ele cair. Enquanto descia, teve consciência de que era apenas isso que o motivava a descer aquela escadaria tantas vezes, a possibilidade da queda, de se arrebentar no chão. E essa seria a mais espetacular de todas. (...) Estava pronto para sangrar (...) de um jeito que ninguém jamais esqueceria. Era seu talento.

O primeiro passo

       Brasil, Janeiro de 1890. Ao mesmo tempo em que se tornava uma República Federativa, nosso país rompia os laços com a Igreja Católica e consolidava-se um Estado Laico Democrático de Direito. Finalmente, não mais prevaleceriam as paixões religiosas de outrora; a partir daquele ano a lei maior a ser seguida seria a Constituição Federal. E logo em seu primeiro artigo, ela deixa claro que seu princípio é o da dignidade humana, visando a construção de uma sociedade livre, justa e sem preconceitos e/ou discriminação de quaisquer tipos. Entretanto, o quanto de tudo isso é de fato assegurado por ela?
       Até então, muito pouco, se tivermos em mente que a Constituição deve acalentar a toda uma nação e não apenas sua maioria. A (boa) surpresa ocorreu atualmente, mais de um século depois da consolidação da República: casais homossexuais passam a ter os mesmos direitos dos héteros. Isso não deveria ser choque algum, tampouco ter gerado tanto estardalhaço na mídia. Ora, se a Carta Magna prega que todos são iguais e dignos, deveria desde o primeiro momento reconhecer as diferentes esferas que as palavras "família" e "união" englobam.
       Porém, não é tão fácil para uma sociedade se libertar de sua bolha quando sua própria origem em 1500 está contaminada pelos dogmas e preconceitos religiosos. Pode-se entender que a resistência ao "novo" significado de família e união é um resquício dessa mentalidade arcaica, haja vista que as principais bancadas opositoras aos direitos dos homossexuais no Congresso foram as religiosas e ruralistas. Apesar de se entender, não se pode compactuar com o preconceito. Como dito anteriormente, o Estado é laico e, portanto, crenças religiosas não podem interferir na liberdade individual e de consciência dos cidadãos, bem como não têm legitimidade alguma na promulgação de leis.
       Os opositores aos direitos LGBT defendem-se dizendo que são a favor dos bons costumes, da moral e que o que os homossexuais querem é implantar uma "ditadura gay" sobre a nação, o que é risível por dois motivos. Primeiro, que há muito tempo os próprios héteros não mais respeitam os bons costumes e passam a exigir isso de uma minoria que é tão humana e falha como eles. Segundo, porque como uma parte excluída, marginalizada da sociedade poderia possivelmente implantar uma ditadura? As recorrentes aparições de gays em seriados, novelas e telejornais não têm o objetivo obscuro de dominação política ou econômica como alguns gostam de delirar, apenas visam dar maior consciência à população de que eles existem e que também são merecedores de respeito e de todos os direitos garantidos pela Constituição, uma vez que antes de serem homossexuais são, sobretudo, seres humanos com vontade de viver e amar como qualquer outra pessoa.
       Finalmente, agora eles podem. Depois da aprovação do Supremo Tribunal Federal, o primeiro passo para a verdadeira igualdade democrática foi dado. Resta agora esperar que outras minorias também possam ser contempladas e integrar efetivamente esse Brasil que amanhece mais justo e digno a cada manhã.



Terremoto diplomático

       2010 foi sem dúvida alguma o ano dos abalos sísmicos. Só para que se tenha dimensão da gravidade, até o início de maio do ano passado os terremotos resultaram em mais de 200 mil mortes pelo mundo, a exemplo do Haiti, China e Sumatra. Não muito depois, em julho, o terremoto tornou-se outro: o anteriormente inofensivo site WikiLeaks ganhou notoriedade ao expor para toda a internet dados sigilosos da diplomacia americana.
       Fundado em dezembro de 2006 pelo jornalista e ciberativista Julian Assange, o WikiLeaks tem se encarregado da publicação de qualquer tipo de mídia e informação sobre assuntos delicados. Em seis meses de existência já era possível encontrar mais de um milhão de documentos que revelavam desde "como se tratar com crueldade" os prisioneiros de Guantánamo (campo de concentração norte-americano em Cuba) até a lista de integrantes da extrema-esquerda da Inglaterra. Entretanto, nada causou tanta repercussão quanto o vazamento (daí o nome Leaks) de dados sobre o exército dos Estados Unidos e sua atividade irresponsável e desumana nas guerras do Iraque e do Afeganistão. São vídeos e páginas e relatórios secretos descrevendo torturas de prisioneiros, ataques a civis por pura "diversão" e tantos outros crimes de guerra.
       Conseqüência disso, WikiLeaks e seu fundador foram considerados pelo governo estadunidense e seus aliados como ameaças à segurança nacional e sofreram pesadas represálias políticas. Simultaneamente à imagem de "terrorista high-tech" - como definiu o vice-presidente da maior potência econômica - há quem diga que Assange é o herói libertário que as democracias atuais estavam precisando. Mas será mesmo tão fácil e eficiente enquadrá-lo em algum desses opostos tão simplistas?
       Ora, todos nós sabíamos o que se passava no Oriente, entretanto preferíamos ignorar, até que Assange surge como aquele que grita boas verdades na cara de todos. O objetivo era nobre: alertar a população mundial acerca dos atos imperialistas que uma América, que se julga tão defensora dos Direitos Humanos, está cometendo em pleno século XXI. Por outro lado, faltou por parte do jornalista o bom-senso ao divulgar dados puramente com o intuito de chocar.
       Em contrapartida, os Estados Unidos. Tão metido em corrupções e fraudes, mas ainda admirado por muitos. A respeito de toda essa confusão o governo declarou que a divulgação de tais dados é uma afronta à diplomacia e chega a "representar risco para os soldados e afegãos". O que eles se esquecem ironicamente é de que sua própria presença no Oriente é que resulta na morte de tantos afegãos, não a liberação de informações secretas sobre o terrorismo que os Estados Unidos tem implantado naquele povo em busca de petróleo.
       Por fim, uma questão que cabe nesse contexto é a dos limites para a divulgação de informações na era da digitalização. A liberdade de expressão foi conquistada após tanta luta que limitá-la seria um desrespeito àqueles que a desejaram no passado. O que deve ser feito, portanto, não é nada mais que a simples aplicação do bom-senso e da ética por ambas as partes; aquela que prejudica e a que divulga. Apenas dessa forma a política externa se torna exatamente como deve ser: transparente, popular e, sobretudo, democrática.