sexta-feira, 15 de abril de 2011

Beleza enlatada

       A valorização da imagem sempre foi um tema recorrente nas sociedades de todas as épocas. Na Bíblia, Salomão declarou: "Vaidade, tudo é vaidade". Narciso, da mitologia grega, tão apaixonado pela própria beleza afogou-se num lago enquanto admirava seu reflexo. Oscar Wilde seguiu o mesmo rumo ao criar seu personagem Dorian Gray, que faz um pacto para ser eternamente jovem e belo, mas acaba caindo na desgraça da infelicidade em plenos anos dourados da Inglaterra.
       De fato, uma boa aparência é desejada pela maioria das pessoas, uma vez que ajuda não só no bem-estar íntimo, mas também na vida profissional e nas relações interpessoais de todos os dias. Os inúmeros avanços das tecnologias e da medicina tornaram-se aliados daqueles que buscam melhorar a saúde e a aparência. Entretanto, é perceptível que cada vez mais pessoas têm confundido a linha que separa uma condição saudável da obsessão pelos estereótipos impostos pelas mídias.
       Na televisão, nas revistas e em outros meios que utilizam-se da visão para cativar o público-alvo o que mais se encontra é a assimilação de beleza com felicidade. Bom seria se fosse a beleza comum, daquela que cada pessoa tem um pouco e é facilmente vista. Mas não. A beleza pregada é a da forma escultural, da pele perfeita, dos cabelos ao vento e da simetria absoluta. Essa perfeição estética inalcançável à maioria da população é o que a torna frustrada em graus cada vez maiores e a leva a cometer loucuras em nome da síndrome da Barbie.
       No Brasil de 2004 mais de 600 mil pessoas se submeteram à cirurgias em busca de melhor aparência e, segundo a London School of Economics em parceria com Harvard, apenas 7% das mulheres brasileiras se consideravam bonitas. Muitas vezes a obsessão em atingir o “padrão” é tanta que extrapola os limites da saúde e resulta em casos conhecidos de perda de cabelo, queimaduras em bronzeamentos artificiais, lipoaspirações mal sucedidas e problemas na coluna e nas articulações devido ao excesso de musculação. Até mesmo aquilo que começa como uma preocupação saudável acerca da dieta pode chegar a níveis doentios como bulimia e anorexia, que estão tornando-se comuns também entre os homens, o que induz à conclusão de que eles agora estão encarando a vaidade com naturalidade em relação às gerações passadas. É preciso, contudo, saber diferenciar vaidade de loucura.
       Felizmente há uma parcela da população que não se submete a esta ditadura dos corpos, que como qualquer outra gera apenas infelicidade. David Weeks, psicólogo da Universidade de Edinburgh, conduziu uma pesquisa de dez anos com 969 pessoas pelo mundo que não se encaixavam nos padrões estéticos impostos. O resultado do estudo confirmou que esse grupo era mais seguro de si mesmo, menos estressado, mais feliz e, por conseqüência, tendia a viver mais.
       É necessário desvincular imediatamente a idéia de felicidade e bem-estar de estereótipos imperfeitos e não-saudáveis. Uma vez que a beleza é padronizada se torna comum e sem graça, além de não ser garantia daquilo que há de melhor para oferecer: inteligência, bondade, amor, respeito e cultura.

Um comentário:

  1. Sabias palavras Guri!
    o pior é que todos sabemos disso, mas niguem quer enxergar... vamos ver onde o mundo vai parar!!

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