sexta-feira, 1 de abril de 2011

Através do espelho

       Ele adorava aquele cheiro. E o barulho característico. De olhos fechados, Daniel deixava todas as suas preocupações e desgostos serem lavados pelo mar abaixo dele. Ao menos uma vez por semana agradava-lhe subir até o ponto mais alta da escarpa e observar a ressaca do mar por incontáveis horas. Aquele dia, porém, o irmão Thomas estava ali, e ele não era muito interessado no marulho ou na salinidade.
       Também, porque haveria de ser? A que ele possivelmente poderia dar evasão? Fora o preferido dos pais, cursou a melhor universidade, fundou uma empresa de sucesso e, mesmo gêmeo, parecia mais bonito que o irmão. Daniel, embora idêntico, era exatamente o oposto. Era o responsável por cuidar da mãe com Alzheimer depois que o irmão se mudou, por lidar com a recente morte da namorada, por não ter tido um único bom emprego, por querer tanto e poder tão pouco. Todavia, não culpava o irmão, àquela hora de pé com a mão em seu ombro esquerdo, chamando-o a se levantar e irem para casa.
       Apenas os dois na sala da mãe doente, sentaram-se nas poltronas de veludo de frente à lareira. Thomas regava suas palavras com vinho, Daniel com vodca. Até a madrugada conseguiram evitar falar sobre como o destino havia transformado suas vidas tão drasticamente. Uma vez tocada a ferida, Thomas percebeu um irmão triste e talvez até invejoso. Mandou-o esperar. Tinha um presente para ele. A verdade.
       Depois de subir, desceu a escada com uma caixa retangular muito fina e de sua altura. Era irreal que estivesse conseguindo carregá-la sozinho, mas Daniel supôs que fosse o efeito do álcool. Thomas parou de pé ao lado da caixa e disse ao univitelino que tudo o que havia conquistado era graças ao que repousava lá dentro. Daniel empolgou-se em ser metade do que o irmão era, mas quando Thomas abriu a caixa e deixou à mostra apenas um enorme espelho numa moldura dourada perdeu as esperanças. O que estava de pé começou a explicar para Daniel que o espelho oferecia um mundo paralelo no qual ele poderia ser e ter tudo o que quisesse e, se fosse forte o bastante, poderia trazer suas conquistas para o mundo real. Entretanto, seu uso deveria ser moderado e responsável, pois muitas pessoas foram levadas à loucura desde que se obteve conhecimento daquele objeto. Para entrar no universo, Thomas pontuou com bastante cautela, Daniel teria que ser capaz de oferecer sua alma. O irmão que ainda estava sentando se levantou, aceitando a condição. De frente ao espelho refletindo as chamas da lareira, selaram o pacto com um beijo. No princípio, seus lábios eram a brisa que anunciava a chegada da primavera. No fim, fogo mais ardente que o que queimava a madeira na sala. E tudo escureceu.
       Do outro lado, Daniel estava deslumbrado. Aquela era a vida que desejava, que merecia. Lá tudo podia, tudo era. Encantou-se com as festas, as mulheres, a fartura e o prazer em toda a extensão de todos os dias. Anos chegaram a se passar e ele não poderia cansar-se nunca de toda aquela vida hedonista. Porém, por motivo incerto, o espelho o vomitou e o jovem estava caído de borco nos pés do irmão sentado à poltrona de veludo. Thomas olhou curioso para seu gêmeo recém-chegado e estava evidente que no mundo real poucos minutos se passaram. Daniel se levantou e desejou retornar, ser absorvido de novo, levado para além do espelho. A superfície reflexiva, insensível, havia tornado-se sólida.
       Semanas se passaram e tudo o que Daniel soube fazer foi falar do espelho e tentar entrar no outro mundo mais uma vez. Thomas, ainda na cidade natal, arrependeu-se de ter revelado o objeto e decidiu livrar-se daquela coisa antes que ela transformasse seu irmão em mais um dos loucos. Colocou a peça na caminhonete. Daniel não aceitava, mas, revoltado, insistiu para ir. Chegaram à conhecida escarpa.
       Os dois viram o objeto pela última vez e Thomas o jogou na ressaca abaixo deles. Num ato impulsivo Daniel, iludido pelo mundo através do espelho, pulou atrás do objeto amaldiçoado desejando fundir-se com ele, provando daquela forma a entrega total de sua alma. Thomas tentou segurá-lo, mas era tarde demais. Enquanto caía, o jovem mirou o topo do monte rochoso e não conseguiu ver o irmão que segundos antes estivera ali na ponta do penhasco. Em queda livre a verdade enfim o atingiu. O jovem encontrou o irmão em si próprio; Daniel e Thomas simultaneamente. Talvez isso pudesse contar como mais uma alma para o espelho, facilitando seu retorno.
       Em breve atingiriam o mar e seriam três em um. Ah, ele adorava aquele cheiro.

2 comentários:

  1. lindo demais *----*
    e sutil.

    ps:. retomada de frases é um tesão, me çduzem.

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  2. Truncado, exige maior clareza. Mas a criatividade é definitivamente um ponto alto do conto, não há quase nenhum clichê, sem dúvidas é uma produção original.

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