É preocupante que em pleno 2011 algumas pessoas civilizadas e estudadas defendam a idéia de que determinada cultura é superior a outra, seja analisando aspectos como a saúde, tecnologia, economia, política ou religião de suas sociedades.
Antes de tudo, é necessário entender e o que é sociedade e cultura. Sociedades são grupos de pessoas com vidas semelhantes e semi-abertas a fatores (incluindo indivíduos) externos. Há, de fato, um intercâmbio de produções, técnicas e métodos entre dois ou mais povos, mas eles ficam caracterizados por suas principais peculiaridades, pelas produções e hábitos comuns geralmente aprovados e feitos pela maioria; e a isso se dá o nome de cultura. Essas características que distinguem uma sociedade, por sua vez, compõem um sistema fechado, suficiente e que faz sentido apenas dentro de si. Não é necessário o olhar, a crítica ou o estudo de alguém que não faz parte de uma cultura para julgá-la melhor ou pior.
Li recentemente uma frase que me motivou a escrever esse artigo: "a cultura indígena é inferior à caucasiana, pois essa última criou a 9mm, arma muito mais potente, tecnológica e que demanda mais inteligência em sua construção que os tacapes ou zarabatanas utilizada pelos gentios.". O comentário absurdo se extendeu ao ponto de "a cultura italiana é superior à brasileira", pois "desenvolveu Ferraris enquanto o Brasil até hoje não tem uma fábrica nacional de automóveis". Os exemplos citados pelo ingênuo que conheci mostram os dois erros que as pessoas que defendem alguma superioridade cultural carregam consigo.
O primeiro é o da relativização cultural. "Uma é melhor que a outra, pois inventou isso ou aquilo." Ora, sejamos sensatos. Nenhuma sociedade é pioneira ou detentora de todos os melhores hábitos e invenções do mundo. Se uma é boa em "A" com certeza deixa a desejar em "B", e porque não admitir que outra cultura pode muito bem desenvolver "B" com maestria?
O segundo erro mistura orgulho e hipocrisia. Todas as sociedades tendem a achar que sua cultura é superior a alguma outra porque suas técnicas são "mais desenvolvidas". Pouco importa se são. Quando se trata de culturas, a única coisa a ser analisada é a eficiência de seus métodos. Voltemos à primeira frase do ingênuo. Postos lado a lado, um revólver e uma zarabatana têm o mesmo objetivo: matar outro ser vivo. Se ambos cumprem a finalidade a que se dispõem em seu ambiente de origem, ambos são eficientes e têm, portanto, o mesmo valor. Como dito acima, culturas são sistemas isolados. Bandidos ou PM's da cidade não vão usar zarabatanas uns contra os outros e índios não vão caçar animais com pistolas 9mm.
Por fim, isso vale para todas as sociedades que divergem tanto quanto aos métodos e criações culturais. Comparar o cinema, a música, a etnia, as festividades e outros fatores para selecionar uma "cultura superior" demonstra apenas ignorância. Se os produtos caracterizadores de um povo forem eficientes em seu sistema fechado, então são tão bons quanto quaisquer outros que também sejam eficientes.
Fiquemos de olho nessas pessoas que legitimam a superioridade cultural de determinada sociedade. No final das contas os pensamentos dos líderes da Inquisição Medieval, dos genocidas de Ruanda, de Hitler, Bin Laden e Gobineau não eram tão diferentes assim...
É como se o avanço do capitalismo tivesse cegado todos, uma vez que agora só se vê os rótulos de que "tal raça", "tal descendência", "tal nação" é superior a outra, mas sem analisar o que está sendo julgado "superior" :/
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